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Discurso sobre as Máscaras

Amleto Sartori

Tradução: Julio Adrião

Outras versões:

• Italiano

Amleto Sartori em seu atelier

Riitrato de um uomo malato, 1938 e Grottesco, 1936

Arlequim Gato, máscara para Arlequim Servidor de dois patrões, de Carlos Goldoni,representado por Marcello Moretti, direção de Giorgio Strehler, Piccolo Teatro de Milão. Couro pintado, 1952

Uma cena, juntos, de Arlequim servidor de dois patrões, de Carlos Goldoni,direção de Giorgio Strehler, Piccolo Teatro di Milano, 1967. Da direita: Bruno Lanzarini ( Dottore), Nico Pepe( Pantalone), Renzo Fabris (Brighella), Ferruccio Soleri (Arlecchino), Graziella Galvani (Smeraldina), Luciana Luppi (Clarice) e Gianfranco Ombuen (Florindo).

Na apresentação de um livro sobre maquiagem teatral, Jean Louis Barrault define a máscara como sendo a consequência extrema da própria maquiagem.
A máscara nasce como uma necessidade, uma idéia para um jogo, uma deformação do próprio homem. É um fator essencialmente visual ligado, como todo fator estético, à uma premissa, a um núcleo moral.
Considerando o rosto como espelho da alma, sede privilegiada da expressão humana, a máscara, nesse sentido, é um meio de identificação da personalidade, que revela as características interiores.
Minhas máscaras nasceram por uma questão de necessidade em 1946/47, quando o teatro da Universidade de Pádova começou a funcionar. Lembro-me de um rapaz que para representar Arlequim pintava no rosto a meia-máscara, o que me pareceu pouco profissional. Pouco tempo depois, fui estimulado por De Bosio e Jacques Lecoq, o famoso mímico francês, a desenvolver um trabalho plástico com as máscaras teatrais. Iniciei trabalhando com papel-maché, até que descobri que as máscaras antigas eram feitas em couro. Nesse momento cresceu em mim a curiosidade e a necessidade de conhecer o processo de criação dessas máscaras. Falei com amigos, consultei inúmeros volumes nas bibliotecas que frequentava e encontrei uma espécie de Tratado (editado por Longania), que falava da arte da encadernação de livros em Veneza no período da Renascença. Obtive então a informação da existência de moldes 'para máscaras' feitos em madeira e chumbo. Iniciei a partir daí uma série de experiências com diversos tipos de couro, recorrendo inclusive a técnicos neste material que se interessaram por minha pesquisa. Depois de muitas tentativas, consegui finalmente um resultado satisfatório. Considero exemplar a máscara que criei para o espetáculo Arlequim, servidor de dois patrões, encenado no Piccolo Teatro de Milão em 1952, com direção de Strehler e atuação de Marcello Moretti. Naquela ocasião, busquei realizar um tipo de máscara que expressasse as características espirituais, se assim posso dizer, de um Arlequim concebido como um 'brigante' (N. do T.: espécie de bandido). Essa máscara possuía características fisionômicas 'animalescas': olhos bem pequenos, um galo bem desenvolvido como uma espécie de chifre do lado direito da testa, herança dos chifres em máscaras diabólicas medievais, proibidas pela Igreja durante a Inquisição.
Foi interessante observar como, na prática, a máscara condiciona os movimentos do ator. A caminhada do Arlequim, que tradicionalmente é baseada em sucessivas arrancadas rápidas, é fruto também da necessidade de executar rápidos movimentos de cabeça antes de cada salto, de modo que o ator possa ter noção do campo visual, limitado pela própria máscara.
Se os movimentos do ator estão ligados à uma condição determinada pelo uso da máscara, a utilização ou não da máscara levará à construção de Arlequins totalmente diferentes uns dos outros.
Também sob o aspecto moral pode-se afirmar algo análogo. O anonimato que a máscara proporciona ao ator, permite que ele faça descobertas como se fosse um indivíduo com vida independente, agindo num espaço vazio, totalmente livre de preocupações dos julgamentos sobre sua conduta. Desta maneira, o ator se permite uma liberdade que o leva a desenvolver um caráter moral completamente desenfreado.
Hoje em dia recitar com máscara, diferentemente da técnica e estética antigas, pode representar a revelação de uma natureza em estado puro. A máscara não é somente um jogo de aspirações (como gostaríamos de ser; quais jogos queremos realizar; quais sensações desejamos transmitir), mas também uma liberação do vínculo com a sujeição, o fingimento, o pudor, a timidez e a simulação. É como falar e agir com a segurança da impunidade. Em outras palavras, a máscara cumpre a função moral da desvinculação dos esquemas habituais impostos pela sociedade em que vivemos. A questão é de importância fundamental na medida em que permite ao homem revelar sua natureza primordial, sua verdadeira essência. É como buscar profundamente, além e fora das convenções.

texto retirado do livro: Maschere e Mascheramenti / i Sartori tra arte e teatro