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| Clique para o texto de Erika Rettl |
Traçando um caminho de encontros, venho percorrendo as pistas deixadas - não sei se ao relento - pela Quimera, transformando-me em imagem/presença necessária. Entre assombros e descobertas, permitindo-me reconhecer e desenvolver potencialidades - a máscara, o som, o movimento, a ação, a palavra, a relação... passo a passo, venho também alicerçando as bases dessa construção - o espetáculo, tecido por muitas mãos.
Mas apesar de ser uma criação conjunta, este é um percurso de solidão, um processo permanente de individuação, onde cada um esforça-se por encontrar o seu lugar dentro da espiral. Onde torna-se tão imprescindível sermos nós mesmos, contribuindo, que passamos a ser o outro, que também nos é. Onde a arte é tão real, que passa a ser sonho. Ir ao encontro, sair em busca da "velha", deixá-la agir e brincar, mostrando-se com toda a sua desenvoltura e estranheza, é seguir uma espécie de "chamado". É preciso "quase" morrer, eu, atriz, para deixá-la ser, ela, a velha, sendo tão ela e tão eu, viva, jogando em cena.
Concluir com certeza onde começa uma e onde termina a outra parece impossível. As impressões e mensagens voam rapidamente do corpo para o espaço, da mente para as ações, do outro para o íntimo, todas rebeldes, arredias. A máscara, esse objeto teatral intrigante, apresenta-se como rico instrumento de auxílio. Ela é mágica, porque é criada para convidar. Mas exige comprometimento. É preciso despertar a energia, reconhecer, conduzir, delimitar, ligar, religar, numa tentativa constante de dar nomes a bois alados inexplicáveis, podendo, então, libertar-se das obrigações, passando a agir num espaço de tempo onde tudo é misteriosamente novo, permitido.
Um caminho árduo, de brincadeira séria. Se é que podemos falar assim... Por enquanto, lidar com esta natureza selvagem tem me obrigado a preparar-me suficientemente, não apenas tecnicamente para bem exercer o meu ofício teatral, com responsabilidade, mas para permitir que esta megera indomável, tantas vezes sofrida e escorraçada, dance e cante, conduzindo-me, falando-me ao pé do ouvido, ensinando-me a cada dia, num processo sem fim. Este é o meu sonho de atriz, minha cumplicidade com o teatro. Meu jogo com o público.