o diretor

Venicio Fonseca

“ACORDA ZÉ!”, para mim, representa a realização de um desejo que vem desde 1992. Naquela época, eu e Erika, pesquisando a máscara teatral, elaboramos o primeiro roteiro deste espetáculo dando início a um trabalho com tipos populares brasileiros, fazendo algumas comparações com os “tipos” e gênero da Commedia dell’Arte. Tivemos como referência os contos populares registrados por Câmara Cascudo, Silvio Romero, a literatura de cordel, alguns escritos de Ariano Suassuna, as festas populares tradicionais desse “Brasilzão de meu Deus”, os causos e estórias de trancoso que ouvi na minha infância e, claro, toda a cultura nordestina que faz parte do meu DNA. Foi nesse mesmo período que conhecemos o Donato Sartori e Paola Piizzi e, conversando sobre nossas ideias, recebi deles orientações técnicas para a confecção da máscara do Zé-di-Riba, inspirado no Arlequim. A partir daí, sucederam-se muitos outros encontros em que refletimos e experimentamos metodologias de vários estilos de máscara teatral. Parecia termos descoberto uma mina preciosa onde tínhamos de ser ao mesmo tempo garimpeiros e artífices deste ofício. Aos poucos, fomos percebendo que a linguagem da máscara é uma mistura de princípios dos vários segmentos da arte que, evidentemente, ficou sendo a principal fonte do nosso fazer teatral. Sem sombra de dúvidas, isso já era uma tarefa que precisava de muita dedicação, mas o maior desafio deste projeto, no que diz respeito a montagem do espetáculo, vinha sendo adiado para dividir com todos que passavam a fazer parte do Moitará. Embora fosse uma função de muito labor, minha satisfação era saber que isso significaria um crescimento artístico e pessoal para todos do Grupo. Com a feliz surpresa do patrocínio da Eletrobrás, tivemos de agir com rapidez e concentrar toda nossa atenção na produção do espetáculo. Retomamos nossas conversas com Paola e Sartori, ficando ele responsável pela criação das outras máscaras. Eu ainda precisava escrever o texto ao mesmo tempo em que os atores iam se preparando para as exigências do trabalho. A minha proposta era que todos participassem das discussões, contribuindo em tudo para a criação do espetáculo e foi nesse exercício de generosidades que convencemos o Zé a se levantar da rede para nos contar seu sonho. A intenção era que texto, jogo da máscara, música, luz, cenário e figurino fossem órgãos de um mesmo corpo que falasse a todos, inclusive à Comunidade Surda. Daí veio o compromisso de incluir nos gestos dos personagens a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), fazendo parceria com o Ponto de Cultura “Palavras Visíveis” e criando uma simbiose do artístico com o social. Quem sabe assim, unindo o real com o imaginário, “descobriremos no sonho o futuro, inventando um bom porto seguro donde ancorar a esperança”.