
Texto de Lanucia Quintanilha
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Lanucia Quintanilha |
Para entendermos a inclusão social dos surdos é necessário falarmos sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e sua importância na comunicação com os usuários da língua, ou seja, os surdos. A língua de sinais é a língua natural dos surdos, no Brasil foi denominada Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e cada país possui a sua língua, assim como a língua oral, o Português, Francês, Inglês etc...
Segundo Skliar (1999), a partir dos estudos de Stkoe em 1960 passa-se a entender a língua de sinais como primeira língua dos surdos, pela possibilidade de aquisição natural e espontânea, por ser uma língua gestual-visual em oposição à aquisição artificial de uma língua de modalidade oral-auditiva. Para que a aquisição natural de uma língua ocorra, é preciso que haja interação com pessoas fluentes nessa língua, seja ela uma língua oral ou de sinais.
Inúmeras propostas educacionais de surdos caracterizaram o final do século XVIII e início do século XIX adotadas em diferentes países da Europa. Na França usavam a língua de sinais, na Inglaterra e Alemanha, predominava o treinamento da língua oral. No final do século XIX, importante fator político ocorreu gerando grande transformação na educação de surdos em todo mundo. No Congresso de Educação de Surdos em Milão, na Itália, após discussão sobre a integração escolar e social dos surdos, foi determinado pelos profissionais da área da surdez, através de votação, que seria abolido o uso da língua de sinais nas escolas, marcando a instauração da abordagem oralista (treinamento para o uso da língua oral) como metodologia de trabalho.
É importante destacar que os professores surdos não puderam participar das resoluções finais que propuseram instauração do programa de ensino de surdos. Segundo a concepção oralista, a integração do surdo na sociedade majoritária, a única forma viável seria realizada por meio da fala e o uso da língua de sinais, considerado fator de atraso ao desenvolvimento do sujeito surdo. Assim, segundo Skliar (1999), por quase cem anos a comunidade surda sofreu perseguições e discriminações ao utilizar sua língua. Impedidos de serem educados na língua de sinais, muitos surdos não conquistaram a língua oral permanecendo sem nenhuma língua de comunicação e sem escolaridade.
Sacks (1990) comenta, por exemplo, que no oralismo os alunos surdos tiveram que aprender o que era antinatural para eles, foram impedidos de usar, no espaço escolar, sua língua natural. As técnicas eram penosas e impediam a integração dos surdos, não só com as crianças ouvintes, mas com a comunidade de iguais.
Embora reconhecida pela UNESCO em 1984, no Brasil, a comunidade surda precisou lutar muito para ter sua língua legalizada. Finalmente a Lei 10.436 de 24 de Abril de 2002, Lei da LIBRAS, foi sancionada e Regulamentada, pelo Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005. O Decreto prevê a inserção da língua de sinais como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, como disciplina curricular optativa nos demais cursos de educação superior e na educação profissional.
Até o meado da década de noventa no Brasil, nos congressos e seminários sobre educação de surdos, não se falava sobre identidade surda. Os ouvintes desconheciam as representações que os surdos tinham dos próprios ouvintes.
As identidades surdas e suas representações, não são baseadas na fala, na audição e sim na visão.
Os surdos aprendem e apreendem a vida através da visão e sua primeira língua, a Língua de Sinais, é viso motora, uma língua não hegemônica que os possibilitam compreender, expressar, refletir, perguntar e aprender uma segunda língua, a língua da sociedade ouvinte do seu país.
Em relação aos movimentos surdos em nosso país, as fontes de pesquisas dizem que sua história começa a ser contada, a partir da chegada ao Brasil, em 1875, do professor francês, Hernest Huet. Esse professor era surdo e ex-diretor do Instituto de Surdos de Paris. As ações de Huet, segundo relatos encontrados em relatórios da revista da FENEIS de 1996 evidenciavam a importância da língua de sinais. Essa língua e sua importância foram se expandindo entre a comunidade surda brasileira.
Os movimentos surdos são constituídos, segundo Perlin, 1999, por grupos de surdos, a maioria dos centros urbanos, que tiveram acesso à escolarização. Muitos estudantes universitários, alguns com cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado, principalmente na área da educação. Esses movimentos representam resistência políticas às práticas dos ouvintes hegemônicas nos diferentes espaços educacionais, sociais e culturais, mas como um espaço de luta pela língua e identidades surdas. Os movimentos surdos estão organizados sob diferentes formas, como associações, cooperativas e clubes. Um dos principais fatores de reunião das pessoas surdas é a língua de sinais através da qual encontram oportunidades para compartilhar experiências, além de representar espaço de reafirmação da luta pelo direito ao uso da língua.
Ainda Perlin (1999), nos diz que o Movimento Surdo no mundo proporcionou uma organização política que avança no sentido de superar a marginalização trazendo esse sujeito para os espaços que o enxerguem como cidadão. É uma organização que atua a partir de estratégias que buscam romper estereótipos que ameacem a sua acessibilidade a uma gama de direitos adquiridos principalmente, a uma educação de qualidade.
Algumas lutas são compartilhadas por grupos de surdos em diferentes regiões do mundo, sendo no Brasil, essa representação feita pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS.
A FENEIS é filiada a Federação Mundial de Surdos (Word Federativos of the Deaf – WFD) com sede na Finlândia. A WFD realiza a coordenação das federações de surdos a nível mundial.
Articulando-se com os organismos ligados às Nações Unidas, os líderes surdos procuram, a partir daí, interferir nas políticas e nas recomendações dadas aos governos dos seus países.
Influência decisiva teve a WFD nas recomendações da UNESCO, em 1984, no reconhecimento formal da Língua de Sinais como língua natural das pessoas surdas, garantindo o acesso de crianças surdas a ela mais precocemente possível.
A dependência por escolas, cursos de teatro que tenham intérpretes de Libras ou professores que dominem essa língua, a falta de informação cultural em relação à política cultural do país e na administração dos próprios grupos de teatro, levam os atores surdos a ficar a margem das propostas culturais do Ministério da Cultura e de outros órgãos que investem em cultura no nosso país.
A inexistência de uma metodologia ou registros dos trabalhos nesse campo, esse universo pouco divulgado explica o incipiente desenvolvimento dos profissionais ouvintes e surdos que atuam nessa área. O Projeto PALAVRAS VISÍVEIS é um projeto inovador tanto para os atores surdos como para a equipe técnica do Grupo Moitará.
Segundo Quadros, 2006, A identidade e a cultura das pessoas surdas são complexas, já que seus membros freqüentemente vivem num ambiente bilíngüe e multicultural.
“Por um lado, as pessoas surdas fazem parte de um grupo visual de uma comunidade surda que pode se estender alem da esfera nacional, no nível mundial. É uma comunidade que atravessa fronteiras. Por outro lado, eles fazem parte de uma sociedade nacional, com uma língua de sinais própria e com culturas partilhadas com pessoa ouvintes do seu país.”
Torna-se imprescindível, para os profissionais ouvintes o respeito pela cultura surda assim como para os atores surdos, o domínio das técnicas e regras do curso. O bom resultado de cada trabalho será resultado de uma direção harmônica, onde a técnica e a cultura surda estejam na mesma sintonia.
Apesar dos preconceitos, das dificuldades lingüísticas e comunicativas o teatro é um elo que liga os atores surdos à cultura da sociedade ouvinte e as dificuldades encontradas pelos surdos em sua trajetória no teatro, impulsionam esses atores ao aperfeiçoamento das suas funções, num processo de ensinar e aprender.
O sociólogo Herbert de Souza ( apud Franco, p.1995) diz que “solidariedade é um gesto ético, de alguém que quer acabar com uma situação e não mais perpetuá-la”. E segundo Franco (1995) a solidariedade só pode ser praticada no presente, desencadeando uma ação concreta de cooperação e colaboração na tentativa de suprir carências. Salientando ainda que a ação concreta e solidária explica-se pela hipótese da existência de uma consciência moral que apreende o outro que sofre como “um outro eu mesmo” e que induz ao reconhecimento de que eu sou responsável pela solução das carências que acarretam sofrimento aos meus semelhantes.
Estes conceitos de solidariedade e de compaixão foram considerados fundamentais na geração do sentimento de co-responsabilidade, impulsionando a participação dos surdos no Projeto PALAVRAS VISÍVEIS. Compreendendo o caráter aberto e dinâmico dos projetos do Ponto de Cultura, o fazer comunicativo do Projeto PALAVRAS VISÍVEIS, mais que informar, toma por tarefa criar uma interação própria entre esse projeto e comunidade surda, através do compartilhamento de conhecimentos e valores.
Deseja-se, assim, que sejam fortalecidos os vínculos dos atores surdos com seus movimentos e que sejam capazes de tomar iniciativas espontâneas de contribuir à causa dentro de suas especialidades e possibilidades.